Nos anos 80, o Brasil vivia uma era de ouro para a criatividade sobre rodas. Sob o regime de importações fechadas, o talento de projetistas independentes florescia em oficinas paulistanas, transformando mecânicas consagradas em sonhos de fibra de vidro.

Entre essas raridades, surge o Diamond: um protótipo arrojado que prometia unir a robustez da Ford a um design com sotaque europeu.

Diamond
Visual lateral do Diamond (Motor 3)

Apelidado de “Jolotinho” — uma referência carinhosa à sua vibrante cor vermelha — o modelo permanece como um dos capítulos mais intrigantes e menos conhecidos da nossa cronologia automotiva.

O Nascimento de um Sonho: De Budapeste para a Barra Funda

A linhagem do Diamond remonta à história de Tomás Klein. Nascido na Hungria, Klein cresceu entre engrenagens na oficina da família, especializada na linha Opel. Ao imigrar para o Brasil, estabeleceu sua própria base na Barra Funda, em São Paulo, onde rapidamente ganhou fama customizando Opalas e trabalhando nos elegantes modelos da Bianco.

Entre 1980 e 1981, Klein decidiu que era hora de materializar sua própria visão de um esportivo brasileiro. Em uma jornada de dedicação absoluta — chegando a trabalhar 20 horas por dia — ele deu vida ao protótipo Diamond e sua variante conversível, o Derby.

A estratégia era astuta: preencher uma lacuna no mercado com um carro que utilizasse a moderna plataforma de tração dianteira da Ford, fugindo do onipresente “ar” da Volkswagen.

Estilo e Design: DNA Italiano sob a Fibra de Vidro

Concebido como uma berlineta 2+2, o Diamond chamava a atenção pelas linhas afiladas e pela generosa área envidraçada.

Diamond traseira
(Motor 3)

O para-brisa traseiro era uma peça de destaque, funcionando também como tampa de acesso ao porta-malas.

Olhando de perfil, era impossível não notar a inspiração nos modelos da italiana Lancia, embora o carro ostentasse uma personalidade brasileira bem definida.

Interior do Diamond (Motor 3)

O interior era um mergulho no “espírito de época”: um acabamento monocromático totalmente vermelho, do estofamento ao revestimento do painel. Uma das soluções mais criativas era o módulo de instrumentos sobreposto, que trazia modernidade ao cockpit.

Contudo, como todo projeto artesanal em estágio inicial, o Diamond ainda enfrentava “dores de crescimento”:

  • Ergonomia: Os pedais deslocados para a direita e o teto baixo exigiam certa contorção de motoristas mais altos.
  • Refinamento: Falhas na ventilação e no isolamento eram pontos que Klein já planejava solucionar na linha de produção.

Engenharia: A Eficiência do Corcel II sob o Capô

Enquanto a maioria dos esportivos da época se baseava no chassi da Brasília ou do Fusca, o Diamond apostou no conjunto mecânico do Ford Corcel II. Klein adotou o motor 1.6 acoplado a uma caixa de cinco marchas, uma escolha que garantia uma condução muito mais suave e silenciosa para os padrões da década.

A adaptação técnica, entretanto, foi muito além de uma simples troca de carroceria:

  • Chassi: Klein utilizou os subchassis originais da Ford, mas os interligou por longarinas metálicas exclusivas para garantir rigidez.
  • Proporções: Para um comportamento mais arisco, o entre-eixos foi encurtado em 9 cm e a largura reduzida em 16 cm em relação ao Corcel original.
  • Peso: Com 1.040 kg, o protótipo era ligeiramente pesado devido à espessura generosa da fibra de vidro, que seria otimizada para a versão final de venda.

Em testes realizados pela revista Motor 3 em 1981, o carro surpreendeu pela estabilidade em curvas de alta e pelo rodar confortável, pecando apenas pela direção pesada em baixas velocidades.

Ficha Técnica (Protótipo 1981)

AtributoEspecificação
MotorFord 1.6 (Corcel II)
CâmbioManual de 5 marchas
Potência70,7 CV DIN a 5.000 rpm
CarroceriaCupê 2+2 em plástico reforçado
TraçãoDianteira
Comprimento4,30 m
Entre-eixos2,35 m
Peso1.040 kg

O Desfecho: O Brilho de um Exemplar Único

Apesar do burburinho na imprensa e do potencial técnico, o Diamond nunca conheceu a linha de montagem. Para viabilizar a produção, Tomás Klein buscava investidores dispostos a injetar entre 15 e 25 milhões de cruzeiros na operação — uma cifra astronômica para o cenário econômico instável do início dos anos 80.

Sem um parceiro financeiro, o Diamond e o Derby permaneceram como peças únicas.

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