Durante as décadas de 1970 e 1980, o Brasil viveu um dos períodos mais criativos da sua história automobilística. Impedidas de importar veículos, as montadoras nacionais se tornaram conservadoras, abrindo espaço para uma leva de construtores independentes que ousaram inovar.

Nesse cenário, surgiu uma das marcas mais emblemáticas entre os carros fora de série: Adamo, uma criação de Milton Adamo, um artesão e designer paulista apaixonado por esportivos e pioneiro no uso da fibra de vidro.
Origem e primeiros protótipos (1968–1971)
A história da Adamo começa em 1968, quando Milton Adamo, proprietário de uma pequena indústria de móveis de poliéster na zona sul de São Paulo, decidiu aplicar seus conhecimentos em fibra de vidro à construção de automóveis.
Naquele mesmo ano, ele apresentou o primeiro protótipo no VI Salão do Automóvel, no estande da Petrobrás, que via no carro uma vitrine para os subprodutos do petróleo usados na confecção da carroceria.

O modelo, de linhas arredondadas e dois lugares, utilizava mecânica Volkswagen 1300 e tinha um visual que misturava esportividade e simplicidade.
Em 1970, o protótipo voltou a ser exibido no VII Salão do Automóvel, rebatizado como Adamo-71, agora com melhorias estéticas e aerodinâmicas.

O Adamo GT: o início da produção (1971–1975)

Em 1971, o modelo de produção finalmente foi lançado com o nome Adamo GT.
Era um automóvel leve e aberto, sem portas, dotado de barra targa e carroceria totalmente em fibra de vidro. Montado sobre a plataforma do Fusca, era oferecido tanto completo quanto em forma de kit, para montagem sobre chassis usados.
O Adamo GT vendia bem para um carro artesanal: segundo estimativas, cerca de 170 unidades foram fabricadas até 1975. Seu sucesso veio do design diferenciado, do acabamento caprichado e da praticidade de montagem.
Adamo GT-2: evolução e design europeu (1974–1978)
Apresentado no IX Salão do Automóvel de 1974, o Adamo GT-2 representou a evolução natural da linha. Com duas versões: grã-turismo e targa, o carro adotava quatro faróis embutidos, traseira truncada com lanternas do Ford Corcel, e um estilo fortemente inspirado nas Ferrari Dino. O motor era o Volkswagen 1600, e o carro continuava fiel à filosofia de ser um esportivo acessível, elegante e artesanal.
Entre 1974 e 1978, foram produzidas aproximadamente 400 unidades, consolidando a marca como uma das mais respeitadas entre os fora de série brasileiros.

Adamo GTL: o auge da sofisticação (1978–1981)
No XI Salão do Automóvel de 1978, Milton Adamo apresentou seu novo modelo: o Adamo GTL, baseado na plataforma do VW Brasília. Com faróis escamoteáveis, painel completo e acabamento interno refinado, o GTL foi considerado pela crítica especializada como um dos mais belos esportivos nacionais da época.

O motor 1.6 de dupla carburação, a velocidade máxima de 163 km/h e o interior com sete instrumentos davam ao carro um ar de esportivo europeu.
O modelo fez tanto sucesso que sua produção chegava a 16 unidades por mês, todas vendidas antecipadamente.
Ficha técnica do Adamo GTL
- Carroceria: cupê em fibra de vidro, duas portas e dois lugares.
- Chassi: plataforma VW Brasília.
- Motor: VW 1600, 4 cilindros, 1.584 cm³, 65 cv a 4.600 rpm.
- Transmissão: manual de 4 marchas, tração traseira.
- Velocidade máxima: 163 km/h.
- Peso: 780 kg.
- Freios: discos dianteiros e tambores traseiros.
- Suspensão: independente nas quatro rodas.
- Consumo: 9 km/l (cidade), 11 km/l (estrada).
Foram produzidas cerca de 600 unidades do Adamo GTL entre 1978 e 1981.
Adamo GTM e CRX: modernização e novos tempos (1981–1990)

Com a chegada dos anos 1980, a linha foi renovada com o Adamo GTM, que trouxe melhorias aerodinâmicas, novas entradas de ar e interior redesenhado. Apesar da recessão econômica que afetou o setor, o GTM manteve boa aceitação entre os entusiastas.
Houve ainda o GTM C2, conversível de capota manual, e o CRX 1.8, modelo targa com visual futurista exibido em salões especializados entre 1985 e 1987.

Durante os anos 1980, foram produzidas cerca de 500 unidades somando GTM, C2 e CRX.
Curiosidades e legado
Milton Adamo foi um dos poucos construtores fora de série que manteve produção ativa por mais de duas décadas, de 1968 a 1990.
Os carros Adamo se destacavam pelo acabamento artesanal refinado, com uso de fibra de vidro de alta qualidade e interiores luxuosos para a época.
Muitos modelos eram vendidos diretamente de fábrica ou sob encomenda, e até hoje são raridades cobiçadas por colecionadores.
O Adamo CRX 1.8 chegou a ser exibido ao lado de ícones como o Miura Targa e o Porsche 550 Spyder no Salão de Veículos Fora de Série de 1986.
Produção estimada da Adamo (1968–1990)
| Modelo | Período | Unidades Produzidas |
|---|---|---|
| Protótipo (1968) | 1 | |
| Adamo GT | 1971–1975 | 170 |
| Adamo GT-2 | 1974–1978 | 400 |
| Adamo GTL | 1979–1981 | 600 |
| Adamo GTM | 1981–1990 | 400 |
| Adamo GTM C2 | 1982–1990 | 100 |
| Adamo CRX | 1985–1990 | 20 |
| Adamo C2000 (protótipo) | — | 1 |
*Estimativas com base em pesquisas de entusiastas e registros da marca.
O fim de uma era
Com o fim das restrições às importações no início dos anos 1990, a era dos carros fora de série chegou ao fim. Marcas como Puma, Miura e Adamo sucumbiram à concorrência dos esportivos estrangeiros.
No entanto, o legado da Adamo permanece vivo entre colecionadores e apaixonados por design automotivo nacional.
Referências
- Revista Manchete.
- Correio da Manhã.
- Jornal do Brasil.
- A Tribuna.
- O Estado.
- O Poti.
- Diário do Paraná.
- Revista Trip: “Paulistano de Fibra”
- Lexicar Brasil
- Blog Esportivos Adamo
- Guepardo: A história do coupé gaúcho que transformava Voyage em esportivo selvagem (e quase ninguém lembra)

- Democrata: A Polêmica História do Carro Brasileiro

- Ônibus Elétrico: A Tentariva de Inovação Brasileira de 1979

- BRM Búfalo: A História do Robusto Jipe Fora de Série Brasileiro

- Farus ML 929: O Esportivo Brasileiro que Marcou Época






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