No panteão da história automotiva brasileira, o Candango, carro produzido pela Vemag sob licença da alemã DKW entre 1958 e 1963, ocupa um lugar especial. Mais do que um simples utilitário, ele foi concebido como um símbolo de força e resistência, batizado em homenagem aos operários que ergueram Brasília, os “candangos”.

Vamos mergulhar na trajetória desse jipe valente, desde seu lançamento até seu fim prematuro, destacando suas características técnicas, curiosidades e o legado que deixou.
O Surgimento do Candango: Um Jipe para o Brasil Moderno
O Candango nasceu em 1958, derivado do DKW Munga alemão, um off-road robusto lançado em 1956 para uso militar e rural.
No Brasil, a Vemag viu no Munga a base perfeita para criar um veículo nacional que atendesse às demandas de um país em transformação. Apresentado em março de 1958, junto com o sedã e a perua DKW, o Candango chegou com alto índice de nacionalização (95,6% em peso até 1959), equipado inicialmente com o motor 900 cm³ de 2 tempos.

Em 1959, passou a contar com o motor 1000 cm³, trazendo mais potência e adequação ao mercado.
O nome “Candango” foi uma escolha estratégica e simbólica. Após disputas jurídicas com a Willys, que detinha os direitos sobre “Jeep” e “jipe”, a Vemag optou por homenagear os trabalhadores de Brasília, cuja inauguração em 1960 marcava o auge do desenvolvimentismo brasileiro.

O Candango era vendido como um veículo “forte, moderno e útil”, projetado para enfrentar tanto o tráfego urbano quanto os desafios do interior.
Candango 4 e Candango 2: Versatilidade para Todos os Terrenos
Inicialmente, o Candango foi lançado como Candango 4, com tração permanente nas quatro rodas. Equipado com um motor tricilíndrico de 2 tempos, 1000 cc e 50 cv (posteriormente 44 cv constantes), ele podia encarar serras íngremes, lama e areia.
Sua suspensão independente nas quatro rodas garantia estabilidade e aderência, enquanto a chapa de aço sob o motor o protegia de obstáculos. A caixa de câmbio oferecia 8 marchas à frente (4 normais e 4 reduzidas) e 2 à ré, com a possibilidade de engatar a reduzida em movimento no modelo 4×4.

Em 1960, atendendo às demandas por um veículo mais acessível e adaptado ao asfalto, a Vemag lançou o Candango 2, com tração apenas nas rodas dianteiras. Ele se tornou o carro mais barato do Brasil, atrás apenas do Romi-Isetta. Com peso de 940 kg e capacidade de carga de 500 kg, o Candango 2 oferecia maior velocidade e conforto em relação ao Candango 4, mantendo a robustez característica da linha.

Versões Especiais
Em 1961, o Candango ganhou uma versão militar, o Candango C-4, adaptada às especificações do Exército Brasileiro, com acabamento espartano e detalhes como freio de estacionamento entre os bancos dianteiros.
Houve também uma versão “praiana” do Candango.

Características Técnicas do Candango
- Motor: 2 tempos, 3 cilindros em linha, 1000 cc, 44 cv a 4.250 rpm, resfriado a água por termo-sifão.
- Câmbio: 8 marchas à frente (4 + 4 reduzidas) e 2 à ré no Candango 4; 4 marchas + reduzida no Candango 2.
- Tração: 4×4 permanente (Candango 4) ou 4×2 dianteira (Candango 2).
- Suspensão: Independente nas 4 rodas, com barras de torção.
- Freios: Hidráulicos nas 4 rodas; freio de mão mecânico (diferencial traseiro no 4, traseira no 2).
- Peso: 940 kg (Candango 2); cerca de 1.060 kg (Candango 4).
- Consumo: Média de 13,6 km/l (Candango 2).
- Dimensões: 2,0 m de entre-eixos, ângulos de ataque/saída superiores a 50%.
Curiosidades sobre o Candango

- Primeiro na Ponte Rio-Niterói: Um Candango 2 laranja, usado pelo Ministro dos Transportes Mário Andreazza durante as obras, foi o primeiro veículo a cruzar a Ponte Rio-Niterói em 4 de março de 1974. Hoje, repousa no Museu da Ponte.
- Motor Barulhento: O 2 tempos era econômico e simples, mas barulhento.
- Tração Pioneira: A Vemag foi a primeira no Brasil a oferecer tração dianteira em série, anos antes do Ford Corcel (1968).
- Números Misteriosos: Há divergências sobre a produção: 5.607, 7.868 ou 4.400 unidades, refletindo a falta de registros precisos.
O Declínio e o Legado
A produção do Candango foi encerrada em 1963. O principal motivo foi a falta de interesse das Forças Armadas Brasileiras, o público-alvo original, que preferiam modelos como o Jeep Willys. A aquisição da Vemag pela Volkswagen em 1967, seguida pela tendência global de abandonar motores 2 tempos, selou seu destino.
Mesmo com vida curta, o Candango deixou marcas. Sua história reflete o espírito de um Brasil em construção, onde a inovação nem sempre garantia sobrevivência no mercado.
Fontes
- Brasil-Oeste (SP)
- Maquis (RJ)
- Diário da Manhã (PE)
- A Cigarra (SP)
- A Noite (RJ)
- O Observador Econômico e Financeiro (RJ)
- Tribuna da Imprensa (RJ)
- Automóvel Clube (RJ)
- Última Hora (RJ)
- O Mundo Ilustrado (RJ)
- Manchete (RJ)
- Wikipedia – DKW-Vemag Candango
- dkw.com.br – Candango
- Revista Colecionismo BR – Facebook
- DKW – Lexicar Brasil
O Candango não foi apenas um jipe — foi um testemunho da engenhosidade brasileira. Você já viu um ao vivo ou tem uma história com ele? Conte nos comentários!





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