O sonho do carro urbano perfeito não é uma exclusividade da era dos elétricos. No final da década de 1980, enquanto o Brasil vivia profundas transformações políticas e econômicas e uma empresa carioca chamada LHM Indústrias Mecânicas decidiu que era hora de revolucionar as ruas das nossas metrópoles.

O projeto atendia pelo nome de Mignone, um veículo que prometia entregar economia extrema em um pacote minúsculo.
O Nascimento do Mignone
A LHM já era conhecida no mercado de veículos especiais por fabricar o Phoenix, uma réplica luxuosa da Mercedes-Benz 280 SL. No entanto, o presidente da empresa, Luiz Henrique Mignone, percebeu uma lacuna no mercado baseada em dados estatísticos: onde observou que a taxa de ocupação média dos veículos era de apenas 1,57 pessoas por carro.

Para ele, era um contrassenso utilizar carros projetados para cinco passageiros para deslocamentos individuais diários, o que gerava congestionamentos e desperdício de combustível. Assim, em 1986, surgiu o projeto do Mignone: um minicarro de apenas 2,80 metros de comprimento — cerca de 70 centímetros menor que um Fiat Uno da época.
Evolução Mecânica
A trajetória mecânica do Mignone foi marcada por constantes adaptações, o que demonstrava tanto a inventividade da LHM quanto a instabilidade da indústria nacional na época:
1. A Fase Volkswagen (1986)
No seu lançamento oficial no XIV Salão do Automóvel em São Paulo, o Mignone utilizava a confiável mecânica Volkswagen 1600 refrigerada a ar, montada na traseira. Com chassis tubular e carroceria monobloco em fibra de vidro (imune à corrosão), o modelo já impressionava pelo aproveitamento de espaço, oferecendo um impressionante espaço de porta-malas de até 452 litros com o deslocamento do banco do passageiro.

2. A Transição para a Fiat (Início de 1987)
Com o encerramento da produção do Fusca pela Volkswagen, a LHM precisou pivotar. O projeto foi modificado para receber o conjunto motor-tração dianteira do Fiat Uno, o que prometia ainda mais espaço interno, mas elevava o custo final do veículo.
3. A Parceria Tecnológica com a Itala (Final de 1987)
Buscando total independência das multinacionais, a LHM firmou um acordo com a Itala Indústria de Motores, de Curitiba. Sob a batuta do engenheiro Salvatore Falcone (ex-integrante da equipe Ferrari), foram desenvolvidos motores bicilíndricos de 650 a 900 CC, refrigerados a água. Essa motorização prometia números de consumo incríveis: entre 22 e 26 km/l em trânsito urbano.

Design e Curiosidades.
O Mignone não era apenas um “carrinho” econômico; ele buscava oferecer também conforto. O modelo topo de linha, o SL, incluía painel completo com tacômetro, relógio analógico e volante espumado em “V” invertido.
Uma das curiosidades mais nobres da produção da LHM era o seu compromisso social. A empresa utilizava mão de obra da APAE para o lixamento das carrocerias e pessoas com deficiência visual para o controle de qualidade da pintura e acabamento, garantindo padrões elevados de execução.
Por que o Mignone não ganhou as ruas?
Apesar do entusiasmo, o Mignone enfrentou o “Custo Brasil” de sua época. Somado às constantes trocas de motorização, o modelo acabou não entrando em produção em série.
A LHM sobreviveu por mais alguns anos vendendo kits de transformação e mantendo o Phoenix em linha, mas o sonho do minicarro brasileiro ultra-econômico ficou guardado no passado.
Ficha Técnica (Protótipo Final – 1987/88)
| Item | Especificação |
|---|---|
| Motor | Itala Bicilíndrico (650 a 900 CC) |
| Potência | 30 a 45 CV (Gasolina/Etanol) |
| Velocidade Máxima | 105 km/h |
| Consumo Urbano | 22 a 26 km/l |
| Comprimento | 2,803 metros |
| Largura | 1,642 metros |
| Capacidade | 2 a 3 passageiros |
| Porta-malas | 387 a 452 litros |
| Chassis | Tubular em aço com carroceria em fibra de vidro |
Conclusão
O Mignone foi um projeto à frente de seu tempo. Ele antecipou a necessidade de veículos urbanos compactos que só viriam a se popularizar décadas depois com modelos como o Smart Fortwo.
Para os entusiastas da história automotiva brasileira, o Mignone permanece como um símbolo da capacidade de engenharia nacional e da ousadia de Luiz Henrique Mignone em tentar transformar o trânsito do Brasil.
Confira também a história de outros projetos de minicarros urbanos como Economini e o Fibron 274.
Fontes Consultadas:
- Diário do Paraná (25/11/1987)
- Diário de Natal (10/10/1986)
- Jornal do Comércio (19/01/1987 e 21/02/1986)
- Jornal do Brasil (26/01/1986, 11/10/1986 e 07/02/1987)
- A Tribuna (05/10/1986 e 28/10/1987)
- Lexicar Brasil – História da LHM





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