A indústria automotiva nacional dos anos 1960 protagonizou um dos capítulos mais controversos de sua trajetória com o surgimento da IBAP (Indústria Brasileira de Automóveis Presidente). Sob a liderança do empresário Nelson Fernandes, a empresa prometeu entregar o “Democrata”, um veículo que desejava ostentar o título de primeiro carro inteiramente projetado e construído com capital nacional.

Neste artigo, o vamos revirar os arquivos da época para desvendar a trajetória desse empreendimento, desde a captação de recursos até o triste fim do sonho.
O Nascimento de um Sonho Nacional
A iniciativa começou oficialmente com a fundação da IBAP em outubro de 1963. Nelson Fernandes, por meio da Empreendimentos N. Fernandes S/A, idealizou um modelo de negócios audacioso: financiar a fábrica através da venda de cotas ao público, transformando cidadãos comuns em sócios-proprietários.
Para definir o design do veículo, a empresa promoveu o “Concurso Presidente” em 1961, aberto a projetistas brasileiros. Cujo o vencedor foi José Ramis com uma proposta que contava com linhas modernas, harmonia e beleza.

A estratégia de marketing apelava fortemente para o patriotismo. Aos subscritores das ações, era entregue uma medalha com a inscrição:
“Esta medalha perpetuará seu nome na história, ligando-o a um empreendimento que demonstrará ao mundo quanto pode fazer um povo consciente da sua própria capacidade de realização”
Promessa de Inovação e Potência
O Democrata não era apenas um projeto de prancheta; ele apresentava especificações técnicas impressionantes para o mercado brasileiro da época. Embora a IBAP tenha apresentado os protótipos iniciais equipados com a mecânica do Chevrolet Corvair, o projeto definitivo evoluiu consideravelmente.

As características técnicas finais do modelo esportivo incluíam:
- Motorização: Um propulsor V6 (60°) projetado na Itália, com 2.500 cm³ e 120 HP a 6.000 rpm.
- Desempenho: Velocidade máxima estimada em 170 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 12,8 segundos.
- Estrutura: Carroceria monobloco em fibra de vidro (fiberglass), com suspensão independente nas quatro rodas e freios a disco.
A fábrica, localizada no km 32 da Via Anchieta, chegou a ter as obras aceleradas e a estrutura metálica erguida, com a promessa de produzir até 350 veículos por dia quando operasse em capacidade total.
Obstáculos, Política e Investigações
A trajetória da IBAP nunca foi tranquila. Desde o início, o empreendimento foi alvo de forte ceticismo. Em 1965, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) investigou a empresa, concluindo, naquele momento, pela inexistência de ilícito penal, embora sugerisse maior fiscalização sobre empresas de capital popular.
No entanto, a situação agravou-se em janeiro de 1967. A polícia e o Banco Central realizaram buscas e apreensões na sede da empresa, suspendendo a venda de títulos. Nelson Fernandes defendeu-se vigorosamente, atribuindo as ações policiais à “influência de grupos estrangeiros” interessados em impedir o surgimento de uma indústria genuinamente nacional.
Mesmo sob pressão, a IBAP tentou manobras ousadas. Em 1968, a empresa chegou a formalizar uma proposta de 150 milhões de cruzeiros novos para comprar a Fábrica Nacional de Motores (FNM), prometendo cobrir a oferta da italiana Alfa Romeo. A proposta, contudo, não prosperou e a FNM acabou vendida aos italianos.
Fim da Linha
O cerco fechou-se definitivamente em 1968. O Banco Central decretou intervenção na empresa e a fábrica encerrou as atividades. Um lote de 500 motores importados da Itália ficou retido na alfândega sob alegação de contrabando, e o projeto colapsou.
Anos mais tarde, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que a intervenção fora indevida; contudo, o dano à imagem e às finanças da IBAP já era irreversível.

Do sonho de milhares de cotistas, restaram poucos vestígios físicos. Apenas cinco protótipos foram fabricados e cerca de trinta carrocerias de fibra ficaram abandonadas no galpão de São Bernardo do Campo por duas décadas. Atualmente, relatos indicam a existência de apenas dois exemplares montados e funcionais.
Referências Bibliográficas
- Diário da Noite, 13/05/1961.
- Diário de Pernambuco, 19/06/1965 e 31/05/1966.
- O Jornal, 24/12/1966.
- Jornal do Brasil, 27/08/1966, 07/01/1967 e 11/01/1967.
- Correio Brasiliense, 03/12/1967.
- Jornal dos Sports, 30/06/1968.
- Lexicar Brasil, “Presidente”. Disponível em: lexicarbrasil.com.br
- UOL Carros, “Democrata: carro nacional foi de sonho a fiasco”, 15/10/2023. Disponível em: uol.com.br




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