Recentemente postei aqui no blog sobre projetos nacionais de minicarros dos anos 80 como o Mignone e o Economini. E hoje trago outro projeto: O Art, um carro projetado sob medida para o caos do trânsito moderno, extremamente compacto, fácil de estacionar, econômico e com um visual exclusivo.

Em uma época de mercado fechado para importações, a indústria de fora de série usou a criatividade para suprir demandas locais.
Conheça a história do Art, seus detalhes técnicos e curiosidades desse pequeno carro que chegou as ruas e até mesmo nas telas de TV.
A Trajetória da Emis: Do Sucesso dos Buggies ao Sonho Urbano

Para compreender o nascimento do Art, precisamos voltar ao final da década de 1970. A história da fabricante carioca Emis Indústria e Comércio de Veículos Ltda. começou a ganhar forma em 1980, fundada por Eduardo de Miranda Santos, sigla que curiosamente, foi criada a partir das iniciais do seu próprio nome.
A marca começou produzindo um triciclo moderno com motor e chassi cobertos por uma carroceria de fibra de vidro. Pouco depois, a Emis lançou um buggy inovador para a época. Diferente dos concorrentes, ele utilizava um chassi de desenho próprio integrado à carroceria, tornando-se o primeiro monobloco da categoria no Brasil.
Em 1981, a marca diversificou-se ainda mais com o Fusck-up, uma picape compacta derivada do Fusca.
No entanto, o mercado de buggies sofria com a sazonalidade. Como o próprio Eduardo Miranda definia, a empresa funcionava “como uma sanfona”, precisando acelerar a produção no verão e quase parar no inverno. O desejo de encontrar um produto constante e a percepção de que os carros convencionais eram maiores do que a real necessidade urbana motivaram o desenvolvimento de um minicarro focado no dia a dia metropolitano.
O Nascimento do Art

O Art não foi inicialmente desenhado pela Emis. O modelona verdade foi criado por volta de 1984 pelo ortodontista e designer Alfredo Veiga, que chegou a construir 13 unidades de forma independente através de sua empresa, a Orto Design.
Em 1985, Alfredo uniu forças com Eduardo Miranda, repassando os direitos de fabricação do veículo para a Emis. O projeto baseava-se em um conceito consolidado na Europa, Japão e Estados Unidos.
O Art começou a ser comercializado inicialmente com mecânica de carros usados. Porém, em setembro de 1986, a Emis passou a fabricá-lo com componentes e mecânica totalmente novos.
O modelo ganhou visibilidade nacional em 1986, quando foi lançado oficialmente para o grande público ao aparecer como destaque em uma novela da TV Globo.
Arte do Compartilhamento de Peças

O grande segredo para viabilizar a produção do Emis Art a um custo competitivo e garantir uma manutenção descomplicada para os proprietários foi o compartilhamento de componentes de grandes montadoras. Marcado por linhas arredondadas, contrastava com um verdadeiro “quebra-cabeça” da indústria nacional:
- Portas e Vidros: Foram herdados do Chevrolet Chevette antigo (sem o quebra-vento, o que, segundo o fabricante, aumentava a rigidez do conjunto).
- Retrovisores: Vinham do Ford Escort.
- Iluminação: Os faróis dianteiros embutidos pertenciam à linha Volkswagen. Já as lanternas traseiras foram extraídas do Fiat Fiorino (e, em algumas fases, do Fiat Panorama).
- Painel de Instrumentos: Os modelos de produção utilizavam o painel da Variant II, completo com velocímetro, relógio, marcador de temperatura e luzes de espia. Curiosamente, as unidades de pré-série usavam o painel do Voyage e, posteriormente, elementos do VW Gol.
Apesar de medir apenas pouco mais de 3 metros de comprimento, o espaço interno surpreendia positivamente. O carro acomodava duas pessoas adultas com absoluto conforto.

Os bancos eram do renomado modelo Recaro, feitos em couro e com desenho anatômico. Motoristas com mais de 1,80 m conseguiam guiar sem aperto, pois os trilhos permitiam recuar os assentos de forma generosa.
Inicialmente, o Art não tinha porta-malas convencional, de modo que as bagagens precisavam ser acomodadas atrás dos bancos, logo acima do compartimento do motor. Posteriormente, a Emis introduziu uma evolução significativa: adicionou dois pequenos assentos traseiros com encostos basculantes, permitindo levar duas crianças com segurança ou converter o espaço em área de carga útil.
Comportamento Dinâmico e Especificações Técnicas

Mecanicamente, o Emis Art apostava no motor Volkswagen 1.600 a ar montado na traseira. o mesmo motor que equipava o Brasília e o Fusca.
A grande inovação mecânica ficava por conta do chassi tubular de aço próprio em formato de “Y” duplo e da suspensão traseira independente com tensores em “V”, molas helicoidais e amortecedores telescópicos de dupla ação.
Graças ao baixo peso de apenas 730 kg proporcionado pela carroceria de fibra de vidro, o minicarro entregava agilidade no trânsito urbano, superando o Fusca nas ultrapassagens e oferecendo facilidade extrema na hora de manobrar. O consumo na cidade ficava na casa dos 10,7 km/l de gasolina.
Ficha Técnica: Emis Art (1986-1987)
| Componente / Especificação | Detalhes Técnicos |
|---|---|
| Motor | Volkswagen 1.600cc a ar, posicionado na traseira |
| Câmbio | Manual de 4 marchas à frente e 1 marcha à ré |
| Chassi | Tubular em aço, formato “Y” duplo |
| Carroceria | Plástica, moldada em fibra de vidro reforçada |
| Comprimento Total | 3.100 mm (3,10) |
| Largura | 1.650 mm |
| Distância Entre-eixos | 1.978 mm |
| Peso em Ordem de Marcha | 730 kg |
| Capacidade de Carga | 350 kg |
| Rodas e Pneus | Liga leve aro 13 com pneus radiais (opção de aro 14) |
| Consumo Urbano | 10,7 km/l(Gasolina) |
| Consumo Rodoviário | 13,7 km/l(Gasolina) |
O Desafio da Manutenção em Carros de Fibra de Vidro
Uma das grandes bandeiras levantadas pela Emis na época era a durabilidade do material. A carroceria de fibra de vidro eliminava completamente o drama da corrosão e da ferrugem, problemas crônicos que afetavam os carros feitos em chapa de aço naqueles anos.
Contudo, colisões acontecem, e a reparação da fibra de vidro exigia mão de obra extremamente especializada, algo que as oficinas comuns não possuíam.
Eduardo Miranda costumava alertar os clientes sobre as diferenças de comportamento dos materiais em colisões: enquanto o aço amassa e deforma, a fibra absorve o impacto de forma elástica até um limite, sofrendo rachaduras, trincas ou quebras localizadas caso o limite seja superado.
O conserto correto não consistia em apenas aplicar massa plástica sobre os danos superficiais, para devolver a resistência mecânica original ao veículo, era necessário realizar a refundição estrutural por meio da aplicação interna de novas mantas de fibra trançada combinadas com resina. Em casos de colisões graves com perda de pedaços, a própria Emis fornecia seções laminadas originais para substituição nas oficinas autorizadas.
O Fim do Pequeno Art

Apesar do conceito promissor, manter uma fábrica de veículos especiais no Brasil da década de 1980 era um desafio. Eduardo Miranda desabafava frequentemente sobre a impossibilidade de competir de igual para igual com as grandes montadoras multinacionais.
As pequenas empresas sofriam com a alta carga tributária, pagando os mesmos 33% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) incidentes sobre gigantes do setor, além de enfrentarem incertezas econômicas como os empréstimos compulsórios da época. Para fins de comparação, o volume anual somado de 150 fabricantes de fora de série no Brasil não alcançava a produção diária de uma única montadora tradicional.
A Emis encerrou oficialmente suas atividades no Rio de Janeiro em 1988. A fábrica carioca fechou as portas, e os direitos de fabricação, matrizes e projetos do Art e dos buggies foram vendidos para a Emisul, empresa representante que já montava os veículos em Porto Alegre (RS). A Emisul deu continuidade à produção dos modelos na região Sul, garantindo que o legado do carrinho não sumisse imediatamente.
Ao todo, apenas 153 unidades do Emis Art foram fabricadas pela matriz carioca ao longo de seus três anos de linha. Esse volume extremamente baixo transformou o modelo em uma verdadeira raridade e um item de coleção cobiçado por entusiastas do automobilismo nacional.
Referências Bibliográficas
- Jornal do Commercio(01/06/1985 e 01/08/1986).
- Jornal do Brasil (07/02/1987 e 14/11/1987).
- Lexicar Brasil – Emis.




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